quarta-feira, 19 de outubro de 2011

As Ondas


No início deste ano eu participei de uma seleção do Sesc-Al para a oficina de literatura Escrever pra quê?. A proposta do curso é desenvolver práticas de leitura e produção de textos que contemplem a construção da escrita de ficção e o fazer-pensar literário que envolve a capacidade de criação literária.
Cada texto foi desenvolvido a partir de um tema. A professora também nos pede o gênero literário, ou nos oferece opções. Nosso primeiro escrito foi um texto em prosa poética sobre uma música. Ela nos deu a música e nos perguntou qual seria a sua cor. O arquivo era em mp3, mas como não consegui carregar aqui, procurei no Youtube.

A música foi "La valse D'Amelie".



As ondas

“Vocês cantam magnificamente!”, exclamou uma das noivas enquanto todos aplaudiam. Sorri e concordei intimamente. O Prisma realmente canta muito bem. Eu faço parte do grupo e me orgulho de sua qualidade, mas não foi esse o único motivo de meu sorriso. O coro leva o nome do belo objeto que divide a luz branca nas sete cores que a compõem. Somos luz, cor e música.



E lá estava eu, no meio de tudo. Sendo parte dele e do sonho das quatro jovens que discutiam, desarmonicamente, como escolher a mais adequada peça de Bethoven ou Vivaldi; ou quem entre Schubert e Gounod havia feito a mais tocante melodia para a Ave Maria; ou se as daminhas deviam entrar sob os acordes de “Alecrim Dourado” ou “Além do Arco-íris”. Era o piano, a flauta, o oboé, o violino e o violoncelo. E nós.


Meu sorriso continuou meio escondido, aparecendo um pedacinho aqui e acolá, enquanto caminhava para o ponto de ônibus e pensava na relação entre cor (luz) e música. Fisicamente são ondas: uma podemos ver e a outra escutar. A primeira é mecânica e a segunda eletromagnética. Essa parte escondeu o sorriso quase de vez. Segui decida a ouvir a música e sentir todas as suas ondas.


Quando a melodia começou a tocar lembrei-me das caixas acústicas da vitrola do meu pai. Eu gostava de ficar deitada no chão bem perto de uma, que ficava em cima do tapete, ao lado do sofá. Ficava lá deitada, com o corpo quase encostado, sentindo a pulsação. Ela parecia viva. A música era a alma da caixa acústica. Meu pai era o deus que a insuflava.

O netbook não serve para isso. Não dá pra ouvir música de verdade desse jeito. Tentei os fones de ouvido e melhorou um pouco. Apaguei as luzes, fechei os olhos e esperei. Elas começaram a chegar de mansinho. As ondas. As do som e as outras. E eu entrei nesse oceano. Lá estavam elas. Começaram fraquinhas e mornas, como uma massagem nos pés. E fui caminhando mar adentro, sentindo-as crescer em tamanho e calor, vagarosa e intermitentemente. Mas não me encobriram completamente, e eu queria a completude. Então soltei meu corpo e me deixei levar, boiando. A temperatura parou de subir e me deixei embalar. Fiquei alguns instantes assim, confortavelmente aquecida e acarinhada. Perfeitamente conduzida.

Não percebi que o banho – ou a dança - estava acabando. Durou menos do que parecia certo, mas não foi um corte desagradável. Mas antes de terminar eu as vi. Com seus belos tons de rosa, salpicados de lilás e branco, harmonicamente combinados, como numa paleta de cores de quarto de menina-moça. Quase senti o gosto de algodão-doce e chiclé na toalha felpuda de nuvens que me manteve aquecida ainda alguns minutos.

Abri os olhos devagar. Breu. A porta do quarto estava aberta, o apartamento dormia. Ouvi a lenta respiração da Alice, a minha Amelie. Amanhã vou escutar a música com ela. Vamos sentir as ondas juntas. Levantei, fui até a sala e chamei o Henrique que dormia no sofá, com o controle do Play Station 3 na mão. Compartilhei minhas sensações. Ele viu uma Amelie pré adolescente do século 18, correndo num campo de flores com um guarda sol na mão.
Pensei num campo de flores delicadas, balançando ao som melódico do vento, misturado ao farfalhar das saias e ao riso da menina. Ao fundo o meu oceano cor de rosa com cheiro de doce.

Se você também quiser a partitura, use o link:


2 comentários:

Adriana Cirqueira disse...

Eu nem sabia do filme!

http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_fabuleux_destin_d'Am%C3%A9lie_Poulain

AF disse...

adorei a parte da vitrola e o detalhe para o controle de ps3 na mao de Henrique (esses maridos, Gabriel tmb adora).
Enfim, depois quero saber a sensaçao da pequena Alice ao tmb entrar nas ondas dessa música.
Se bem que para ela, nao será mais o mesmo som da vitrola ou radiola... :)

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