sábado, 28 de janeiro de 2012

Anacrônica



Lá ele parece não ter passado. Parece que a qualquer momento, numa esquina ou curva de suas ruas de pedras gastas, surgirá uma “sinhá” de vestido longo e sombrinha de babados.

De longe avistei o casarão amarelo, avarandado e imponente. Com seus jardins escuros e cheios de musgo. A escadaria lateral coberta de poeira e folhas. Encostei a mão no portão e nela pousei meu rosto. Achei ter ouvido uma sonata de Mozart ao piano. Uma vereda quase desaparecida ainda serpenteava em direção aos fundos do casarão. Um porche novinho na garagem ao lado do caramanchão me expulsou de volta ao século 21.

Acordei cedinho porque o cicerone do meu grupo, ao ver minha câmera fotográfica reflex novinha, havia me alertado, na noite anterior, sobre alguns adolescentes que, de uns tempor pra cá, começaram a assaltar pessoas sozinhas andando pelas ruas desertas. Assaltavam os incautos turistas que, de olhos e boca abertos pela beleza da cidade, se descuidavam e vagavam pelas ruas estreitas e desertas, acompanhados apenas dos fantasmas que parecem magnetizar os sentidos, fazendo a percepção de espaço-tempo parecer deslocada.

O ar friozinho e a luz suave deixavam tudo mais vivo e limpo. O orvalho ainda escorria nas folhas e as janelas estavam suadas. Os cliques quebrando o silêncio do dia recém-nascido soavam como um sacrilégio. Mas apesar de a máquina não capturar também meu estado de espírito, eu não me permiti perder o pouco que me restaria daquela experiência e tratei de espantar o estado de reverência, pegando pros meus arquivos fotográficos um pouquinho daquilo tudo.

Um ônibus velho, chacoalhando feia e barulhentamente passou ao lado do colégio estadual. Senti a repulsa das pedras do calçamento subir pelas minhas pernas. Até as paredes estremeceram de indignação. Numa curva fechada quase tive esperança de que ele tombasse, ferido de morte. Mas ele tossiu sua fumaça escura e malcheirosa e subiu a ladeira, se contorcendo e gemendo como um verme agonizante, deixando um rastro escuro que eu jurei cheirar a enxofre. Aos poucos a atmosfera se regenerou e pude ouvir de novo o chamado de sereia dos espíritos dos casarões e casebres. Das praças, das árvores e calçadas. Foi por um triz.

Eu a vi de longe e caminhei lentamente até ela e entrei. O cheiro de passado me envolveu. Sentei no último banco. Toquei na madeira do espaldar. Fria e lisa. Quantos e há quanto tempo ali estiveram, agradecendo ou pedindo? Quantas mãos descansaram naquele mesmo lugar, para dar aquela textura ao rústico último banco da bela pequena igreja dos pretos? Não consegui levantar a câmera lá dentro. Na verdade, nem me lembrei que carregava uma. Atravessei a curta nave acariciando cada um dos bancos enquanto ouvia o barulho dos meus passos no piso poroso. O cheiro, a textura e o som me acompanharam até o altar.

Ao me virar para sair, através da luz que entrava pela porta lateral, uma sombra escorregava entre o primeiro banco e a entrada da sacristia. Os olhos, acostumados à penumbra demoraram a distinguir a pequena senhora que, de joelhos, rezava. Senti-me a intrusa-mor e saí dali “fugida”. Eu não tinha rezado um Pai-Nosso sequer. Ao cruzar a porta e sentir a luz e o calor do sol no rosto, percebi que havia feito uma de minhas melhores orações.

Voltei caminhando para a pousada. O dono assistia ao telejornal sentado numa poltrona antiga enquanto seu filho digitava num smartphone. Tropecei, mas se tivesse caído não sentiria tanto. Me deu até vontade de chorar. Espantei as lágrimas, mas a visão continuou turva.

E ele, que parecia não ter passado, riu da minha cara, enquanto eu subia os degraus irregulares da brega escada de azulejos coloridos. Ele e o relógio digital que me olhavam através do espelho manchado colocado como enfeite sobre uma mesa de toalha plástica com desenhos de frutas. "Corre Adriana. Eu já estou aqui e você está atrasada".

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Foto: Jalon Nunes


Outro exercício do "Escrever pra que?" - Crônica sobre a cidade de Penedo

3 comentários:

Anônimo disse...

Penedo, minha bela Penedo. Esquecida pelos governantes, já com garotos "cheira-cola" e trombadinhas...

Maria do Carmo - Caruaru disse...

Belas igrejas, banhada pelo São Francisco e cheia de história. Uma beleza de cidade.

Jalon Nunes disse...

Penedo: uma novidade antiga. Belíssima!

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