sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fórceps

Mais um das criações para o "Escrever pra que?".
Em setembro do ano passado, visitamos a mostra "Incetisismo", lá mesmo no  Sesc Centro. Era uma exposição individual do artista visual alagoano Allan Monteiro, que reunia esculturas feitas em ferro, resina, massa plástica e outros materiais. 
Na entrada havia um cartaz que fotografei. Não li nada sobre o artista e o estilo. Não fotografei as peças para que escrevesse apenas o que senti na hora. Sem rever e reavaliar.


Fórceps

Eu olhava e só via desespero. Não: angústia, medo, dor, solidão, terror, espanto, loucura. Desesperadamente intensos em fluidez contínua. Mesmo os intervalos não pareciam pausas, pois no espaço aparentemente vazio o grito, mudo, ecoava.

Parei, olhei e falei. Dos olhos à boca sem filtro: “- O desespero era tanto que explodiu a cabeça para poder sair!”. Envergonhada ante os olhares de estranheza dos colegas, me desculpei e prossegui, calada, mas torcendo pra alguém me perguntar alguma coisa, pois minha língua estava doida para fugir da boca e colocar pra fora pelo menos a metade das coisas que povoavam a minha cabeça. Antes pela boca que pelo topo do crânio.

Era um tipo de latrina. Ou um calabouço. Um híbrido de privada e masmorra. Um espaço onde ele expeliu, de uma forma ou de outra, uma tormenta avassaladora. Seus monstros deviam ser grandes e terríveis. E ele deu descarga. Alguns eram invisíveis e saíram pela boca, ou abriram caminho à força, explodindo uma cabeça torturada de diversas maneiras, por várias vezes. Havia ainda os que foram paridos em agonia, ou aguardavam a sua vez, ondulando em pêndulos de crisálidas improváveis.

Ele deve ser existencialista. Não quero pensar que seja alguém consumido pela depressão. De qualquer forma, percebi sua angústia de sentir um conteúdo crescente num continente limitador. A impotência de sua condição humana à mercê de um mundo castrador e de uma imaginação desenfreada. Quais teriam sido suas escolhas para que chegasse até ali? O que ele teria feito com a sua liberdade para que sua existência fosse de conflito e fuga? Que experiências e relacionamentos colecionou em sua existência que justificassem tudo aquilo?

Não consegui dar uma face ao criador analisando suas criaturas. Pior, não consegui captar a beleza que existe em toda obra de arte. O grotesco e o horror, para mim tem de beleza apenas a ausência. Também não fiz grandes aquisições intelectuais. Encontrei ali uma representação plástica do desespero.  Talvez fosse a terapia do artista. De saldo, a alegria, o alívio e a certeza de não me reconhecer em nada, e a esperança de não termos nada em comum.

2 comentários:

Anônimo disse...

Que nome!! Ainda bem que não visitei essa exposição.

Adriana Cirqueira disse...

Mas a exposição foi interessante! Vale a pena conhecer.

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